Em períodos de maior tensão política, acompanhar as notícias pode parecer quase uma obrigação. Pesquisas eleitorais, declarações de candidatos, debates, vídeos, análises, conflitos nas redes sociais e previsões sobre o futuro surgem a todo momento na tela do celular. O problema começa quando a necessidade de se manter informado se transforma em uma busca praticamente interminável por novas informações — especialmente aquelas negativas ou preocupantes.
Esse comportamento ganhou um nome: doomscrolling.
O termo descreve o hábito de continuar rolando as redes sociais ou navegando por notícias negativas mesmo quando aquele conteúdo já está provocando desconforto, ansiedade ou esgotamento. E, em momentos marcados por incerteza política, conflitos internacionais, problemas econômicos ou eleições, esse ciclo pode se tornar ainda mais intenso.
Uma revisão científica publicada em 2026, que analisou estudos sobre doomscrolling e saúde mental, encontrou associações recorrentes desse comportamento com ansiedade, depressão, estresse, ruminação e menor resiliência psicológica. Os próprios pesquisadores ressaltam que boa parte dos estudos disponíveis ainda é observacional e, portanto, não permite afirmar simplesmente que o doomscrolling seja a causa isolada desses problemas. Ainda assim, a relação encontrada merece atenção.
Por que notícias políticas podem prender tanto a nossa atenção?
O cérebro humano é especialmente sensível a possíveis ameaças.
Em termos evolutivos, perceber rapidamente algo perigoso poderia ser decisivo para a sobrevivência. Mesmo que hoje a ameaça não seja um predador diante de nós, informações relacionadas a desemprego, violência, crises econômicas, conflitos políticos ou mudanças que possam afetar nosso futuro podem ativar mecanismos semelhantes de vigilância.
É por isso que títulos alarmantes costumam chamar tanta atenção.
Durante uma eleição, por exemplo, frases como “o que acontecerá se…”, “risco de…”, “cenário preocupante…” ou “veja o que pode mudar…” podem estimular repetidamente a sensação de que precisamos saber mais uma informação antes de conseguir relaxar.
O problema é que dificilmente existe uma notícia capaz de eliminar completamente a incerteza.
Pelo contrário: uma informação leva a outra, que conduz a um vídeo, que apresenta outro cenário, que leva a novos comentários e opiniões.
É aí que pode surgir o ciclo do doomscrolling:
incerteza → busca por informação → contato com conteúdo negativo → aumento da ansiedade → nova busca por informação.
Um estudo publicado na revista Personality and Individual Differences encontrou justamente uma relação entre ansiedade, dificuldade em tolerar incertezas e maior tendência ao doomscrolling. A busca por notícias pode surgir como tentativa de diminuir a insegurança, mas o excesso de informações nem sempre produz a tranquilidade esperada.
Estar informado não é o mesmo que estar conectado o tempo inteiro
É importante fazer uma distinção: acompanhar política não é um problema de saúde mental por si só.
Informar-se sobre eleições, propostas, economia e decisões públicas faz parte da vida em sociedade. O problema está principalmente na forma, na frequência e no impacto emocional desse consumo.
As redes sociais tornaram essa fronteira ainda mais difícil de perceber.
Diferentemente de um jornal ou telejornal que possui começo e fim, uma timeline pode continuar indefinidamente. Além disso, os algoritmos aprendem quais conteúdos despertam nossa atenção e podem oferecer repetidamente assuntos semelhantes.
Quando existe uma preocupação política específica, por exemplo, assistir a vários vídeos sobre aquele assunto pode fazer com que a plataforma apresente ainda mais conteúdos relacionados a ele.
Em pouco tempo, a pessoa pode ter a impressão de que praticamente tudo o que está acontecendo no mundo gira em torno daquela ameaça.
A American Psychological Association também chama a atenção para os efeitos da exposição constante às notícias em períodos de grande incerteza. Entre as medidas sugeridas para lidar melhor com o estresse estão dormir adequadamente, praticar atividade física e estabelecer pausas no contato contínuo com notícias e dispositivos digitais.
Política, redes sociais e ansiedade: quais sinais merecem atenção?
O problema nem sempre aparece como uma crise de ansiedade evidente.
Às vezes, os primeiros sinais são mais discretos:
- verificar notícias várias vezes por hora;
- sentir necessidade de atualizar constantemente as redes sociais;
- dificuldade de interromper discussões políticas online;
- irritação frequente depois de acessar determinadas plataformas;
- sensação constante de que “algo ruim está prestes a acontecer”;
- dificuldade de concentração no trabalho ou nos estudos;
- pensamentos políticos repetitivos mesmo durante momentos de lazer;
- tensão muscular, inquietação ou aceleração dos pensamentos;
- dificuldade para dormir porque é preciso verificar “só mais uma notícia”.
A Cleveland Clinic destaca que o doomscrolling pode estar associado a estresse, ansiedade, fadiga mental, dificuldades de concentração e alterações no sono. Um dos sinais importantes é justamente continuar consumindo conteúdos negativos mesmo percebendo que eles estão provocando sofrimento.
O problema não é ter uma opinião política
Outro ponto importante é separar engajamento político de sofrimento psicológico relacionado à política.
Ter posições firmes, acompanhar debates ou discordar de outras pessoas não significa necessariamente que exista um problema.
A atenção deve aumentar quando a política começa a ocupar uma parcela desproporcional da vida mental.
Isso pode acontecer quando uma discussão continua sendo mentalmente reproduzida durante horas, quando divergências passam a comprometer relações familiares ou quando pensamentos sobre acontecimentos políticos impedem a pessoa de aproveitar atividades que antes eram prazerosas.
Em algumas situações, o indivíduo passa inclusive a antecipar continuamente cenários catastróficos.
“E se determinado candidato vencer?”
“E se a economia piorar?”
“E se tudo mudar?”
“E se acontecer aquilo que disseram no vídeo?”
A mente tenta resolver problemas futuros que, naquele momento, não podem ser resolvidos. E quanto maior a necessidade de obter certeza absoluta sobre o futuro, maior pode ser a tentação de pesquisar, assistir e ler continuamente.
Como reduzir o doomscrolling sem deixar de acompanhar as notícias?
A solução não precisa ser abandonar completamente as redes sociais ou deixar de acompanhar acontecimentos importantes.
Algumas mudanças simples podem ajudar.
Uma delas é estabelecer horários específicos para consumir notícias, em vez de consultar o celular continuamente ao longo do dia.
Também pode ser útil escolher poucas fontes confiáveis e evitar alternar compulsivamente entre dezenas de perfis, canais e comentaristas.
Desativar notificações de notícias e reduzir o uso do celular antes de dormir são outras estratégias importantes.
Ao perceber vontade de atualizar novamente o feed, uma pergunta simples pode ajudar:
“Existe alguma informação realmente necessária que estou procurando ou estou tentando diminuir minha ansiedade?”
Essa diferença pode parecer pequena, mas é fundamental.
Outra estratégia é recuperar atividades que devolvam a atenção para o mundo concreto: exercício físico, convivência familiar, hobbies, leitura, contato com amigos e momentos fora das telas.
Informação é importante. Mas mais informação nem sempre significa mais controle.
Quando a ansiedade relacionada à política precisa de ajuda profissional?
Algum nível de preocupação diante de períodos de incerteza é esperado. Entretanto, quando a ansiedade se torna frequente, intensa ou difícil de controlar, vale procurar ajuda profissional.
Isso é especialmente importante quando existem sintomas como insônia persistente, crises de ansiedade ou pânico, irritabilidade intensa, dificuldade de concentração, prejuízo profissional, isolamento social ou preocupação excessiva que interfere nas atividades cotidianas.
Nesses casos, o problema pode não estar apenas nas notícias.
O consumo compulsivo de informações pode estar funcionando como uma manifestação de uma dificuldade maior em lidar com ansiedade, incerteza ou necessidade de controle.
Uma avaliação adequada permite compreender o que está acontecendo e definir a melhor estratégia para cada pessoa.
Informação deve ajudar a compreender o mundo — não impedir você de viver nele
Em períodos eleitorais ou de grande tensão política, talvez seja impossível eliminar completamente as notícias negativas. Também não é necessário se tornar indiferente ao que acontece ao nosso redor.
O desafio está em encontrar um equilíbrio.
É possível participar, informar-se, discutir ideias e exercer a cidadania sem permanecer psicologicamente conectado ao noticiário durante todas as horas do dia.
Se você percebe que ansiedade, excesso de notícias, doomscrolling ou preocupações constantes com acontecimentos políticos estão prejudicando seu sono, seus relacionamentos ou sua rotina, uma avaliação psiquiátrica pode ajudar a identificar se existe um transtorno de ansiedade ou outro quadro que mereça acompanhamento.
O Dr. João Bomfim, médico psiquiatra, pode realizar uma avaliação individualizada dos sintomas, considerando não apenas os sinais de ansiedade, mas também os fatores emocionais, comportamentais e cotidianos envolvidos. Com diagnóstico adequado e acompanhamento profissional, é possível desenvolver estratégias para recuperar o equilíbrio e manter-se informado sem permanecer em estado constante de alerta.
Fontes consultadas
- The influence of doomscrolling on mental health: a scoping review. Mental Health and Digital Technologies, 2026.
- Beyond the Scroll: Exploring How Intolerance of Uncertainty and Psychological Resilience Explain the Association Between Trait Anxiety and Doomscrolling. Personality and Individual Differences, 2025.
- American Psychological Association — orientações sobre saúde mental e estresse em períodos de incerteza.
- Cleveland Clinic — informações sobre doomscrolling, ansiedade, estresse e sono.