Quando pensamos em transtorno bipolar, é comum imaginar duas situações completamente opostas: de um lado, uma pessoa deprimida, sem energia e desanimada; do outro, alguém eufórico, extremamente ativo e cheio de disposição.
Na prática, nem sempre essa separação é tão clara.
Existem situações em que características depressivas e sintomas associados à mania ou à hipomania podem aparecer simultaneamente. A pessoa pode estar profundamente angustiada e pessimista, mas, ao mesmo tempo, sentir-se agitada, irritada, impulsiva ou com os pensamentos correndo em alta velocidade.
É o que a psiquiatria descreve como episódios de humor com características mistas. Revisões contemporâneas sobre o transtorno bipolar destacam que esses estados são clinicamente relevantes e podem estar associados a um curso mais complexo da doença.
Afinal, é possível estar deprimido e “acelerado” ao mesmo tempo?
Sim.
Uma pessoa pode apresentar sintomas típicos da depressão, como tristeza, perda de interesse, desesperança e sensação de vazio, enquanto manifesta simultaneamente determinados sinais de ativação.
Entre eles podem estar:
- pensamentos acelerados;
- inquietação;
- aumento da energia;
- irritabilidade intensa;
- maior impulsividade;
- dificuldade para relaxar;
- aumento da fala;
- sensação de estar “ligado demais”.
Isso pode gerar um quadro bastante diferente daquela imagem clássica da depressão em que a pessoa permanece predominantemente lenta e sem energia.
Por exemplo: alguém pode estar extremamente pessimista sobre a própria vida e, ao mesmo tempo, andar de um lado para o outro, sentir a mente acelerada e ter dificuldade para dormir.
É justamente essa combinação aparentemente contraditória que pode tornar os sintomas mistos difíceis de reconhecer.
Nem sempre existe euforia
Outro equívoco comum é imaginar que a mania ou a hipomania precisam necessariamente envolver alegria intensa.
A elevação do humor pode acontecer, mas irritabilidade e aumento da atividade também podem fazer parte desses estados.
Por isso, uma pessoa com transtorno bipolar nem sempre irá parecer exageradamente feliz durante uma fase de maior ativação. Ela pode estar impaciente, inquieta, intolerante, dormindo menos ou tomando decisões de maneira mais impulsiva.
Quando parte desses sintomas aparece durante um episódio predominantemente depressivo, a apresentação clínica pode se tornar ainda mais complexa.
Estudos recentes continuam investigando as características clínicas dos estados mistos justamente porque eles não correspondem perfeitamente à divisão simplificada entre “mania” e “depressão”.
Por que os sintomas mistos podem passar despercebidos?
Um dos motivos é que a pessoa pode procurar atendimento principalmente por causa da depressão.
Ela relata tristeza, desânimo ou ansiedade, mas talvez não perceba como relevantes outras mudanças que estão acontecendo simultaneamente, como dormir menos, falar mais rapidamente ou sentir uma irritabilidade incomum.
Às vezes, essas características também são interpretadas simplesmente como ansiedade ou como uma reação ao estresse.
Por isso, durante uma avaliação psiquiátrica, é importante observar não apenas como a pessoa está naquele momento, mas também seu histórico de sono, energia, comportamento, impulsividade e oscilações do humor.
No transtorno bipolar tipo II, por exemplo, os episódios depressivos podem ser muito mais frequentes e duradouros do que os períodos de hipomania, o que ajuda a explicar por que alguns casos podem inicialmente ser interpretados como depressão unipolar.
Alguns sinais merecem atenção
Nenhum sintoma isoladamente confirma transtorno bipolar ou um episódio com características mistas.
Entretanto, algumas combinações podem justificar uma investigação mais cuidadosa.
Imagine alguém que, durante um período de forte depressão:
- passa a dormir muito menos do que o habitual;
- percebe pensamentos excessivamente rápidos;
- fica intensamente irritável;
- sente inquietação constante;
- começa diversos projetos de forma impulsiva;
- apresenta mudanças importantes no comportamento;
- toma decisões financeiras ou pessoais que normalmente não tomaria.
Esse conjunto de mudanças pode conter informações importantes para o psiquiatra.
Também é útil considerar o histórico. Episódios anteriores de energia anormalmente elevada, períodos com necessidade reduzida de sono ou mudanças marcantes na atividade podem oferecer pistas fundamentais.
Ansiedade e sintomas mistos são a mesma coisa?
Não.
A ansiedade pode provocar inquietação, insônia, pensamentos repetitivos e sensação de aceleração. Por isso, existe certa sobreposição.
O diferencial depende de uma avaliação mais ampla.
O psiquiatra irá investigar, por exemplo, se houve aumento incomum da energia, mudanças na necessidade de dormir, alterações na fala, impulsividade, comportamento mais expansivo e outras manifestações relacionadas ao humor.
Também é possível que ansiedade e transtorno bipolar coexistam. Revisões sobre bipolaridade mostram que a presença de estados mistos está frequentemente associada a maior complexidade clínica e a outras condições psiquiátricas concomitantes.
Por que identificar essas características é importante?
Porque diferentes apresentações dos transtornos do humor podem exigir estratégias terapêuticas diferentes.
Identificar corretamente o padrão dos sintomas ajuda o profissional a compreender se está diante de depressão unipolar, transtorno bipolar ou outra condição.
Além disso, pesquisas e diretrizes clínicas dão atenção especial ao tratamento de episódios depressivos que apresentam características mistas, justamente porque sua condução pode diferir daquela utilizada em quadros depressivos sem sinais de ativação.
Isso reforça um princípio importante da psiquiatria: não basta olhar apenas para um sintoma. É preciso entender como os diferentes sinais se combinam e como o humor da pessoa se comporta ao longo do tempo.
O transtorno bipolar não é simplesmente “mudar de humor”
Esse também é um ponto importante.
Ter dias melhores e piores, mudar de opinião ou ficar irritado em algumas situações faz parte da experiência humana e não caracteriza, por si só, transtorno bipolar.
O diagnóstico envolve episódios de alteração do humor acompanhados de mudanças relevantes na energia, no sono, na atividade, no pensamento e no comportamento.
A intensidade, a duração e o impacto na vida cotidiana fazem diferença.
Da mesma forma, apresentar ansiedade ou períodos de maior produtividade não significa necessariamente que exista hipomania.
Por isso, a tentativa de autodiagnóstico por listas de sintomas encontradas na internet pode causar confusão.
Quando procurar avaliação psiquiátrica?
Mudanças marcantes ou recorrentes no humor, na energia e no comportamento merecem atenção, principalmente quando começam a prejudicar relacionamentos, trabalho, estudos ou decisões importantes.
Também vale conversar com um profissional quando períodos de depressão parecem acompanhados de características incomuns, como redução importante do sono, aceleração do pensamento, irritabilidade intensa ou impulsividade.
Reconhecer um possível padrão bipolar pode exigir a reconstrução de meses ou mesmo anos da história emocional da pessoa. Por isso, informações fornecidas por familiares e registros sobre alterações de sono, humor e comportamento também podem ser úteis durante o acompanhamento.
O Dr. João Bomfim é médico psiquiatra e está apto a avaliar e acompanhar pessoas que apresentam oscilações importantes do humor, episódios depressivos, sintomas relacionados ao transtorno bipolar e outras mudanças de comportamento e energia. Uma avaliação individualizada permite compreender como esses sintomas se relacionam, investigar o histórico clínico e definir uma estratégia de tratamento adequada às necessidades de cada paciente.