Uma crise de pânico pode durar poucos minutos, mas o medo de que ela aconteça novamente pode permanecer por dias, semanas ou até meses. Depois de experimentar sintomas intensos como palpitações, falta de ar, tontura, tremores ou a sensação de estar perdendo o controle, é comum que a pessoa comece a se perguntar: “E se isso acontecer de novo?”
Quando essa preocupação passa a ocupar cada vez mais espaço na rotina, pode surgir um fenômeno conhecido como ansiedade antecipatória. A pessoa não está necessariamente tendo uma nova crise naquele momento, mas permanece em estado de alerta, imaginando quando e onde o próximo episódio poderá acontecer.
Com o tempo, o medo da próxima crise pode modificar comportamentos, limitar atividades e prejudicar significativamente a qualidade de vida.
O medo de sentir medo
Durante um ataque de pânico, o organismo pode apresentar uma série de manifestações físicas intensas. Entre as mais frequentes estão aceleração dos batimentos cardíacos, sudorese, tremores, sensação de falta de ar ou sufocamento, desconforto no peito, náusea, tontura, calafrios e formigamentos.
Também podem surgir sensações de desrealização, medo de perder o controle ou até medo de morrer.
O problema é que, depois de vivenciar uma experiência tão assustadora, algumas pessoas passam a observar o próprio corpo de forma muito mais intensa.
Um pequeno aumento da frequência cardíaca pode ser interpretado como o início de outra crise. Uma tontura passageira pode gerar preocupação. A sensação normal de falta de ar depois de subir uma escada pode ser percebida como sinal de perigo.
Forma-se, então, um ciclo:
sensação corporal → interpretação de perigo → aumento da ansiedade → intensificação dos sintomas físicos → mais medo.
A partir daí, não é apenas o ataque de pânico que provoca sofrimento. A possibilidade de que ele volte a acontecer também passa a ser temida.
Estudos sobre transtorno do pânico destacam justamente a importância da ansiedade antecipatória, da sensibilidade às manifestações físicas e dos comportamentos de evitação na manutenção do quadro.
Quando a vida começa a ser organizada em torno da próxima crise
Imagine alguém que teve uma crise de pânico enquanto dirigia.
Mesmo depois de passar por avaliação médica e não encontrar um problema físico que explique aquele episódio, a experiência pode ter sido tão marcante que a pessoa passa a pensar: “E se acontecer de novo enquanto eu estiver no trânsito?”
Inicialmente, talvez ela evite dirigir em rodovias. Depois, deixa de dirigir sozinha. Mais tarde, começa a evitar trajetos longos ou lugares onde seria difícil parar o carro.
Algo semelhante pode acontecer com inúmeras situações: shopping centers, aviões, metrôs, elevadores, cinemas, restaurantes cheios, filas, shows ou locais muito distantes de casa.
Para se sentir segura, a pessoa pode começar a criar estratégias como permanecer sempre perto de uma saída, levar medicamentos consigo mesmo quando não há indicação de uso naquele momento, verificar constantemente os batimentos cardíacos ou só sair acompanhada.
Essas atitudes podem trazer alívio imediato. No entanto, quando a evitação se torna frequente, ela pode reforçar a ideia de que determinada situação realmente é perigosa.
É assim que o universo da pessoa pode ficar progressivamente menor.
Síndrome do pânico e agorafobia não são a mesma coisa
Embora possam ocorrer juntas, transtorno do pânico e agorafobia são condições distintas.
No transtorno do pânico, existem ataques recorrentes e uma preocupação persistente com novos episódios ou com as possíveis consequências das crises.
Já a agorafobia envolve medo ou ansiedade acentuados diante de situações nas quais a pessoa acredita que escapar seria difícil ou que não teria ajuda disponível caso apresentasse sintomas incapacitantes ou semelhantes aos de uma crise de pânico.
Pesquisas recentes mostram que, embora os dois quadros compartilhem características, pacientes com transtorno do pânico associado à agorafobia podem apresentar uma estrutura de sintomas diferente, especialmente quanto ao medo antecipatório e aos comportamentos de evitação.
Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas continuam realizando normalmente suas atividades entre as crises, enquanto outras passam a restringir significativamente sua rotina.
O corpo pode se transformar em um “radar de perigo”
Outro aspecto importante é a hipervigilância corporal.
Quem teve uma experiência intensa de pânico pode começar a monitorar sensações que, anteriormente, praticamente passavam despercebidas.
O coração acelerou?
A respiração está diferente?
Estou ficando tonto?
Minha mão está formigando?
Quanto maior a atenção direcionada a essas sensações, mais evidentes elas podem parecer. E, quando são interpretadas como sinal de que uma nova crise está começando, a própria ansiedade pode aumentar as manifestações físicas.
Por esse motivo, algumas abordagens terapêuticas trabalham justamente com a relação que o indivíduo desenvolveu com as próprias sensações corporais.
Uma revisão publicada em 2025 sobre intervenções digitais baseadas em terapia cognitivo-comportamental para transtorno do pânico e agorafobia encontrou resultados favoráveis e identificou a exposição interoceptiva — técnica realizada de maneira estruturada para trabalhar o medo das sensações físicas associadas ao pânico — como um componente capaz de aumentar a eficácia das intervenções avaliadas.
Outro ensaio clínico publicado em 2026 estudou uma intervenção baseada em Terapia de Aceitação e Compromisso associada à exposição interoceptiva para pacientes com transtorno do pânico, refletindo o interesse atual por estratégias terapêuticas que ajudem o paciente a modificar sua relação com essas sensações e com o medo que elas provocam.
Isso não significa que a pessoa deva tentar provocar sintomas por conta própria. Técnicas de exposição fazem parte de protocolos terapêuticos e devem ser utilizadas de forma adequada e individualizada.
É possível interromper esse ciclo?
Sim. O transtorno do pânico é uma condição tratável.
As diretrizes brasileiras para tratamento do transtorno do pânico publicadas em 2026 analisaram revisões sistemáticas e ensaios clínicos para estabelecer recomendações baseadas em evidências para o tratamento da condição no país.
Dependendo das características e da intensidade do quadro, o tratamento pode envolver psicoterapia, medicamentos ou a combinação das duas abordagens.
A terapia cognitivo-comportamental é uma das modalidades amplamente estudadas. Entre seus objetivos estão compreender o funcionamento das crises, identificar interpretações catastróficas das sensações físicas, modificar padrões de comportamento e trabalhar gradualmente situações que passaram a ser evitadas.
Em determinados pacientes, o tratamento medicamentoso também pode ser indicado pelo psiquiatra. A decisão depende de fatores como intensidade e frequência das crises, impacto na rotina, presença de outras condições psiquiátricas, histórico clínico e resposta a tratamentos anteriores.
Por isso, não existe uma única estratégia válida para todas as pessoas.
Quando procurar ajuda?
Ter um ataque de pânico isolado não significa necessariamente apresentar transtorno do pânico. Além disso, sintomas semelhantes aos encontrados durante uma crise podem ocorrer em outras condições de saúde, razão pela qual uma avaliação adequada é importante, especialmente diante de sintomas novos ou intensos.
A avaliação especializada torna-se particularmente importante quando existe medo constante de uma nova crise, quando a pessoa começa a evitar lugares ou atividades, quando seu trabalho, seus relacionamentos ou sua vida social são prejudicados ou quando as crises passam a ocorrer repetidamente.
O objetivo do tratamento não é simplesmente “aguentar” uma crise. É compreender o que está acontecendo e impedir que o medo de uma próxima crise passe a determinar onde a pessoa pode ir, o que pode fazer e como deve viver.
Dr. João Bomfim, médico psiquiatra, realiza avaliação e acompanhamento de pacientes com transtornos de ansiedade, síndrome do pânico e outras condições relacionadas à saúde mental. A avaliação individualizada permite compreender os sintomas, investigar possíveis diagnósticos e definir a estratégia de tratamento mais adequada para cada paciente.
Fontes e referências
Brazilian Journal of Psychiatry / Associação Brasileira de Psiquiatria — Brazilian Psychiatric Association guidelines for the treatment of panic disorder: an overview of systematic reviews. Publicação de 2026 com diretrizes brasileiras baseadas em evidências para o tratamento do transtorno do pânico.
Journal of Clinical Medicine — Jung HW et al. Digital Cognitive Behavioral Therapy for Panic Disorder and Agoraphobia: A Meta-Analytic Review of Clinical Components to Maximize Efficacy. 2025. Revisão de 31 estudos sobre terapia cognitivo-comportamental digital para transtorno do pânico e agorafobia.
Scandinavian Journal of Psychology — Bäckman L et al. Internet-Based Acceptance and Commitment Therapy With Interoceptive Exposure for Panic Disorder: A Randomized Controlled Trial and Working Alliance Analysis. 2026.
Depression and Anxiety — Hilleke M et al. How Do Patients’ Fear Prediction and Fear Experience Impact Exposure-Based Therapy for Panic Disorder With Agoraphobia? 2025.
Yonsei Medical Journal — A Comparison of Symptom Structure between Panic Disorder with and without Comorbid Agoraphobia Using Network Analysis. 2025.