Depressão afeta a memória e a concentração? Entenda os sintomas cognitivos

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“Estou esquecendo tudo.”

“Leio a mesma coisa várias vezes e não consigo prestar atenção.”

“Até decisões simples parecem difíceis.”

“Minha cabeça parece mais lenta.”

Essas frases podem aparecer no consultório de pessoas que estão vivendo um episódio depressivo. Embora a tristeza, a perda de interesse e o desânimo sejam sintomas mais conhecidos, a depressão também pode afetar funções cognitivas importantes, como atenção, memória, velocidade de processamento e capacidade de planejar e tomar decisões.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 encontrou alterações em diferentes aspectos das funções executivas relacionadas à depressão, destacando especialmente a influência da velocidade de processamento mental.

Por isso, em alguns pacientes, a sensação de “mente travada” não é apenas impressão: ela pode fazer parte do próprio quadro depressivo.

Depressão não acontece apenas nas emoções

Costumamos separar mente e corpo em categorias muito rígidas. Na prática, os transtornos mentais podem produzir alterações em várias dimensões do funcionamento.

Na depressão, podem existir mudanças em:

  • humor;
  • sono;
  • apetite;
  • energia;
  • motivação;
  • movimento;
  • capacidade de sentir prazer;
  • atenção;
  • memória;
  • organização do pensamento.

Há décadas os estudos identificam diferenças de desempenho cognitivo em pessoas com depressão, principalmente em áreas como memória, atenção e funções executivas. Pesquisas mais recentes continuam aprofundando essas relações.

Isso ajuda a compreender por que algumas pessoas relatam não conseguir trabalhar ou estudar como antes mesmo quando estão fazendo grande esforço para manter sua rotina.

O que significa ter dificuldade de concentração?

Imagine tentar acompanhar uma reunião enquanto sua atenção se perde repetidamente.

Ou abrir um livro e perceber que, ao chegar ao fim de uma página, você não consegue lembrar o que acabou de ler.

Outra situação comum é começar uma tarefa, interrompê-la e ter dificuldade para retomar o raciocínio.

Problemas de concentração podem tornar tarefas simples muito mais cansativas. E isso pode criar um ciclo frustrante: a pessoa produz menos, percebe sua queda de rendimento e começa a se cobrar ainda mais.

Em vez de interpretar essa dificuldade como sintoma, ela pode concluir:

“Estou ficando incompetente.”

“Não consigo fazer nada direito.”

“Todo mundo consegue menos eu.”

Quando essas interpretações aparecem junto à depressão, podem reforçar sentimentos de inadequação e baixa autoestima.

E a memória?

A memória também depende de atenção.

Para que uma informação seja lembrada posteriormente, primeiro é necessário conseguir registrá-la adequadamente. Se alguém está distraído, exausto ou com o pensamento ocupado por preocupações, pode ter dificuldade já nessa primeira etapa.

É por isso que, algumas vezes, aquilo que parece ser um problema grave de memória pode estar relacionado à dificuldade de atenção e processamento da informação.

Ainda assim, alterações de memória devem ser avaliadas cuidadosamente, principalmente quando aparecem de forma intensa, progressiva ou em pessoas mais velhas, pois diferentes condições clínicas e neurológicas também podem provocar esse sintoma.

Estudos sobre depressão indicam alterações tanto em memória quanto em outros domínios cognitivos, e algumas dificuldades podem continuar sendo identificadas mesmo depois da melhora dos sintomas emocionais.

Por que até pequenas decisões ficam difíceis?

Escolher o que comer.

Responder uma mensagem.

Decidir qual tarefa fazer primeiro.

Comprar alguma coisa.

Resolver um problema simples do trabalho.

Durante um episódio depressivo, situações que normalmente seriam automáticas podem exigir um esforço enorme.

Isso acontece porque tomar decisões envolve várias funções ao mesmo tempo: concentração, memória de trabalho, avaliação de alternativas, antecipação de consequências e motivação para agir.

As chamadas funções executivas ajudam a planejar ações, controlar impulsos, mudar de estratégia quando algo não funciona e manter objetivos.

A depressão está associada a dificuldades mensuráveis em diferentes componentes dessas funções.

Por isso, a pessoa pode saber racionalmente que precisa fazer algo e, ainda assim, permanecer paralisada diante da tarefa.

Isso significa que a pessoa está perdendo inteligência?

Não.

Dificuldade cognitiva durante a depressão não deve ser confundida automaticamente com redução permanente da inteligência.

O desempenho mental pode ser influenciado pelo próprio episódio depressivo, pela qualidade do sono, pela ansiedade, pelo estresse, por medicamentos, pelo consumo de álcool ou outras substâncias e por diferentes condições clínicas.

Há ainda diferenças importantes entre indivíduos. Algumas pessoas apresentam queixas cognitivas muito marcantes; outras percebem principalmente sintomas emocionais.

O objetivo da avaliação é justamente compreender essa combinação.

A melhora do humor resolve automaticamente a dificuldade cognitiva?

Nem sempre de maneira imediata.

Em muitas pessoas, atenção e memória melhoram à medida que o episódio depressivo é tratado. Entretanto, estudos mostram que alguns déficits cognitivos podem permanecer detectáveis mesmo após a remissão dos principais sintomas depressivos.

Isso ajuda a explicar uma experiência relatada por alguns pacientes:

“Eu já não estou tão triste, mas ainda não voltei a funcionar como antes.”

Essa informação pode ser importante durante o acompanhamento, porque o objetivo do tratamento não é simplesmente reduzir um número de sintomas. É também ajudar a pessoa a recuperar seu funcionamento cotidiano, autonomia e qualidade de vida.

Nem toda dificuldade de memória é depressão

Este é um cuidado fundamental.

Problemas de memória e concentração podem aparecer em muitas situações diferentes, incluindo:

  • privação de sono;
  • ansiedade;
  • estresse intenso;
  • uso de determinados medicamentos;
  • alterações da tireoide;
  • consumo de álcool e outras substâncias;
  • transtorno de déficit de atenção;
  • doenças neurológicas;
  • envelhecimento;
  • outras condições médicas.

Em pessoas mais velhas, por exemplo, queixas cognitivas associadas à depressão podem, em determinadas situações, ser confundidas com transtornos neurocognitivos, o que torna necessária uma avaliação clínica cuidadosa.

Portanto, não é indicado concluir sozinho que a causa é emocional — nem concluir automaticamente que existe uma doença neurológica.

Observe mudanças em relação ao seu próprio padrão

Uma das perguntas mais úteis é:

“Eu sempre fui assim ou isso mudou?”

Talvez alguém sempre tenha sido esquecido com horários, mas nos últimos meses passou a esquecer compromissos importantes.

Talvez sempre tenha conseguido trabalhar diante de várias demandas, mas agora não consiga terminar uma tarefa simples.

Talvez gostasse de ler e, recentemente, tenha perdido completamente a capacidade de acompanhar um texto.

Mudanças persistentes em relação ao funcionamento habitual podem fornecer informações importantes para a avaliação.

Quando procurar ajuda?

Vale buscar avaliação quando dificuldades de memória, concentração ou tomada de decisões aparecem junto de tristeza persistente, perda de interesse, cansaço, alterações do sono, isolamento ou queda significativa no rendimento.

Também é recomendável procurar um profissional quando as dificuldades cognitivas, mesmo sem tristeza evidente, começam a comprometer a rotina.

Depressão não significa apenas “estar triste”. Em alguns pacientes, o prejuízo no funcionamento mental pode estar entre os sintomas mais incômodos da doença.

O Dr. João Bomfim é médico psiquiatra e está apto a avaliar e acompanhar pessoas que apresentam sintomas de depressão, dificuldades persistentes de concentração e memória, alterações de energia e outras mudanças relacionadas à saúde mental. A avaliação individualizada permite investigar as diferentes possíveis causas dos sintomas e estabelecer um plano de tratamento adequado a cada caso.