Esquizofrenia e relacionamentos: como a cognição social pode ser afetada

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Um olhar de desaprovação.

Uma brincadeira.

Uma mudança discreta na entonação da voz.

Uma pessoa demonstrando impaciência sem dizer diretamente que está incomodada.

Grande parte das nossas interações depende de informações que nunca são expressas de maneira explícita. O cérebro observa rostos, gestos, tons de voz e contexto para tentar compreender o que as outras pessoas estão sentindo e quais são suas intenções.

Essa habilidade faz parte da chamada cognição social.

Em pessoas com esquizofrenia, alguns desses processos podem apresentar alterações. Pesquisas sobre o tema mostram dificuldades particularmente em capacidades como reconhecimento de emoções e interpretação dos estados mentais de outras pessoas.

Isso pode ajudar a compreender por que determinadas situações sociais se tornam cansativas, confusas ou sujeitas a mal-entendidos.

O que é cognição social?

Cognição social é um conjunto de habilidades mentais utilizadas para compreender outras pessoas e participar das relações sociais.

Ela envolve, por exemplo:

  • reconhecer emoções em expressões faciais;
  • perceber emoções pelo tom de voz;
  • compreender regras e pistas sociais;
  • interpretar intenções;
  • imaginar o que outra pessoa pode estar pensando;
  • ajustar o comportamento ao contexto.

Fazemos isso tantas vezes ao dia que quase nunca percebemos.

Quando alguém cruza os braços, muda de expressão e responde de forma curta, por exemplo, somos capazes de reunir essas pistas e levantar hipóteses sobre seu estado emocional.

Mas essas interpretações não dependem apenas dos olhos ou dos ouvidos. São operações complexas do cérebro.

Reconhecer uma emoção nem sempre é simples

Uma parte importante da cognição social é o reconhecimento emocional.

Expressões de alegria geralmente são mais fáceis de perceber. Outras emoções, especialmente quando aparecem de maneira discreta ou ambígua, podem exigir interpretação mais sofisticada.

Em algumas pessoas com esquizofrenia, estudos identificam dificuldades em reconhecer corretamente determinados sinais emocionais. Pesquisas recentes continuam investigando essas alterações e sua relação com o funcionamento social.

É importante deixar claro que isso não significa que a pessoa “não tenha emoções” ou não se importe com os outros.

Uma coisa é sentir uma emoção.

Outra é identificar corretamente a emoção expressada por outra pessoa.

E existe ainda uma terceira habilidade: decidir como responder socialmente àquela informação.

O que é “teoria da mente”?

Esse nome pode parecer técnico, mas descreve algo que fazemos constantemente.

“Teoria da mente” é a capacidade de imaginar que outra pessoa possui pensamentos, intenções, conhecimentos e sentimentos diferentes dos nossos.

Considere esta situação:

Uma pessoa entra em uma sala procurando um objeto. Você sabe onde ele está, mas ela não sabe.

Para compreender seu comportamento, é necessário separar aquilo que você sabe daquilo que ela sabe.

Em situações reais, esse processo pode ser muito mais complexo.

Por exemplo:

“Ele falou isso porque estava brincando ou porque ficou irritado?”

“Ela não respondeu minha mensagem porque está ocupada ou porque está com raiva?”

“Essa pessoa realmente está tentando me ajudar?”

Responder a perguntas como essas exige interpretar informações incompletas.

Estudos sobre esquizofrenia descrevem alterações tanto no reconhecimento emocional quanto em tarefas relacionadas à teoria da mente.

Como isso pode afetar os relacionamentos?

Uma interpretação equivocada de pistas sociais pode gerar uma sequência de dificuldades.

Imagine que uma expressão neutra seja percebida como hostil.

A pessoa pode responder defensivamente.

O interlocutor, sem entender o motivo, também reage negativamente.

A conversa fica tensa.

Depois de várias experiências semelhantes, a pessoa pode começar a evitar situações sociais.

Essa é apenas uma possibilidade e não descreve todas as pessoas com esquizofrenia. Mas ajuda a mostrar como uma pequena dificuldade de interpretação pode ter consequências maiores para amizades, família, trabalho e vida cotidiana.

Pesquisas que avaliam intervenções voltadas especificamente à cognição social encontraram melhora em aspectos como reconhecimento emocional, capacidade funcional e funcionamento na vida real, reforçando a importância clínica desse domínio.

Isso é a mesma coisa que delírio?

Não.

Problemas de cognição social e delírios são fenômenos diferentes, embora em determinados casos possam se influenciar.

Um delírio envolve uma convicção persistente que não corresponde à realidade compartilhada e que não se modifica facilmente diante de evidências contrárias.

Já uma dificuldade de cognição social pode envolver, por exemplo, interpretar incorretamente uma expressão facial ou ter dificuldade para compreender a intenção de alguém em uma conversa.

A avaliação psiquiátrica procura compreender essas diferentes dimensões.

Além disso, fatores como ansiedade, isolamento social, experiências anteriores e sintomas psicóticos podem interferir na maneira como alguém interpreta uma situação.

Nem todo comportamento social diferente significa esquizofrenia

Esse cuidado é fundamental.

Pessoas tímidas podem evitar interações sociais.

Pessoas com ansiedade social podem interpretar determinadas situações como ameaçadoras.

Depressão pode causar isolamento.

Transtornos do espectro autista também podem envolver diferenças na comunicação e na interpretação social.

Além disso, qualquer pessoa pode entender errado uma expressão ou uma intenção.

Portanto, uma dificuldade social isolada jamais é suficiente para diagnosticar esquizofrenia.

O diagnóstico exige uma avaliação ampla dos sintomas, da história clínica, de sua duração e do impacto sobre o funcionamento.

Familiares podem ajudar evitando julgamentos

Quando uma pessoa interpreta uma situação de forma diferente, dizer simplesmente “isso está na sua cabeça” ou “você entendeu tudo errado” pode não ajudar.

Uma alternativa mais construtiva é tentar tornar a comunicação clara.

Em vez de depender de indiretas, é possível explicar intenções de maneira objetiva.

Por exemplo:

“Eu fiquei preocupado, não estou bravo com você.”

“Quando disse aquilo, estava brincando.”

“Vou sair agora porque tenho um compromisso, não porque não quero conversar.”

Reduzir ambiguidades pode facilitar determinadas interações.

Isso não significa concordar com interpretações que não correspondam aos fatos. Significa apenas reconhecer que uma comunicação clara pode ser mais eficiente do que críticas ou confrontos constantes.

Essas habilidades podem ser trabalhadas?

A cognição social é atualmente uma área importante de pesquisa e reabilitação em esquizofrenia.

Existem intervenções desenvolvidas especificamente para trabalhar identificação de emoções, interpretação de situações sociais e compreensão das intenções dos outros.

Estudos e metanálises recentes indicam que treinamentos de cognição social podem produzir melhorias, sobretudo em reconhecimento emocional, embora o grau de benefício varie conforme a intervenção e as características dos participantes.

Essas estratégias podem fazer parte de um acompanhamento mais amplo, que também considere sintomas psicóticos, sintomas negativos, cognição, autonomia e qualidade de vida.

Olhar além de alucinações e delírios

Talvez esse seja um dos pontos mais importantes.

A esquizofrenia é frequentemente apresentada ao público quase exclusivamente por meio dos sintomas psicóticos mais evidentes.

Entretanto, viver bem envolve muito mais do que apenas não ter alucinações ou delírios.

Compreender uma conversa, interpretar emoções, manter relacionamentos, trabalhar, estudar e participar da vida social também são aspectos fundamentais.

Ao reconhecer as dificuldades de cognição social, familiares e pacientes podem entender melhor determinados comportamentos que antes pareciam apenas estranhos, distantes ou incompreensíveis.

Quando procurar avaliação?

Mudanças importantes no pensamento, na percepção da realidade, na comunicação ou no comportamento social devem ser avaliadas quando persistem ou começam a comprometer a vida cotidiana.

Em pessoas que já possuem diagnóstico de esquizofrenia, dificuldades nas relações sociais também podem ser discutidas durante o acompanhamento, mesmo quando outros sintomas estão controlados.

O objetivo não é apenas identificar uma doença, mas compreender quais aspectos do funcionamento estão sendo afetados e quais estratégias podem contribuir para maior autonomia e qualidade de vida.

O Dr. João Bomfim é médico psiquiatra e está apto a avaliar e acompanhar pessoas que apresentam sintomas relacionados à esquizofrenia, alterações da percepção e do pensamento, dificuldades de interação social e outras mudanças importantes na saúde mental. A avaliação individualizada permite compreender as diferentes manifestações do quadro e estabelecer um acompanhamento adequado às necessidades de cada paciente.